Menor exposição a telas de computadores, celulares e televisão durante as atividades de lazer relacionada com melhor cognição entre as crianças

 

 

 

 

 

Crianças que passam menos de duas horas por dia fazendo atividades de lazer diante de telas de computador, tablet ou celular, como acessar mídias sociais na internet e assistir televisão, e que conseguem dormir o suficiente e praticar mais atividades físicas, têm melhor cognição do que as crianças que passam mais tempo em atividades diante das telas, que dormem menos e praticam menos atividades físicas, sugere nova pesquisa.

Os pesquisadores utilizaram dados de um estudo de 10 anos com mais de 4.500 crianças entre oito e 11 anos de idade para avaliar a adesão ao Canadian 24-hour Movement Guidelines for Children and Youth em relação à prática de atividades físicas, lazer, tempo diante das telas e duração do sono.

Os pesquisadores descobriram que o cumprimento das três recomendações foi associado a melhor cognição global. Além disso, a adesão somente às recomendações para o tempo diante das telas, bem como às recomendações para o tempo diante das telas e para o sono juntas, também foi associada a melhor cognição. A atividade física foi associada a melhora da saúde física.

Apenas metade dos participantes atendeu às recomendações referentes ao sono, só um terço cumpriu as recomendações sobre o tempo diante das telas e menos de um quinto atendeu as recomendações para a prática de atividades físicas. Apenas 5% das crianças atenderam todas as recomendações.

“Descobrimos que o dia inteiro importa para a saúde cognitiva”, disse o autor do estudo Joel Barnes, MSc, analista de dados e conhecimento do Healthy Active Living and Obesity Research Group, Children’s Hospital of Eastern Ontario Research Institute em Ottawa, no Canadá.

“Crianças norte-americanas dos oito aos 10 anos de idade que cumpriram o 24-hour Movement Behavior Guidelines tiveram melhor pontuação de cognição global em comparação às crianças que não o fizeram, com cada recomendação adicional cumprida estando associada a melhora da cognição global”, acrescentou Joel.

“Estas observações são o resultado da adoção de uma abordagem integrativa, avaliando o comportamento das crianças ao longo do dia, o que permite considerar a todo o continuum do comportamento”, disse o pesquisador ao Medscape.

O estudo foi publicado on-line em 26 de setembro no periódico Lancet Child and Adolescent Health.

Onipresente na vida moderna

“A atividade física, o comportamento sedentário e o sono podem influenciar a cognição de modo independente e em conjunto”, escreveram os autores.

“Boa qualidade e quantidade de sono têm uma associação positiva com a cognição e o desempenho escolar de crianças e adolescentes”, escreveram.

Alguns estudos preliminares sugeriram associações negativas entre os comportamentos sedentários e a cognição das crianças, apesar da inconsistência desses resultados, observaram os autores, possivelmente por causa da diversidade de tipos de comportamento sedentário estudados.

No entanto, com a “utilização generalizada dos dispositivos com telas, seu uso representa grande parte do tempo sedentário das crianças”, segundo os pesquisadores.

As 2016 Canadian 24-Hour Movement Guidelines para crianças entre cinco e 13 anos de idade recomendam ≥ 60 minutos de atividades físicas de intensidade moderada a vigorosa, ≤ 2 horas por dia diante das telas e de nove a 11 horas de sono ininterrupto por noite.

As diretrizes de movimento comportamental em 24 h (24-Hour Movement Guidelines) foram elaboradas para ser um parâmetro para o ideal de saúde física das crianças, disse Joel.

“Observamos anteriormente que quanto mais orientações as crianças e os jovens adotam, melhor a saúde física deles, mas ainda não tínhamos tido a oportunidade de estudar a associação entre estes movimentos comportamentais e a cognição”, disse o pesquisador.

“Sabemos que a atividade física exerce um forte efeito positivo na saúde do cérebro das crianças, enquanto a inatividade física – atividade física insuficiente – e o comportamento sedentário podem ter uma repercussão negativa, mas é necessário fazer muito mais pesquisas e, vale ressaltar, este não foi o foco do nosso estudo”, observou Joel.

“Na verdade, estávamos interessados especificamente na relação entre o tempo diante das telas e a cognição, porque as telas são onipresentes na vida moderna, e as crianças e os jovens crescendo hoje em dia vivem em um contexto onde as telas são parte integrante de suas vidas”.

“O estudo sobre o desenvolvimento cognitivo cerebral do adolescente (ABCD, do inglês Adolescent Brain Cognitive Development) ofereceu a oportunidade de acompanhar a cognição ao longo do dia e o padrão que observamos em termos de saúde física parece se assemelhar ao da cognição – o dia inteiro faz diferença”, disse o pesquisador.

O estudo ABCD é um estudo observacional longitudinal com 21 centros nos Estados Unidos, que faz o rastreamento de crianças até a adolescência em vários domínios relacionados com o desenvolvimento cerebral e a saúde. Os dados estão sendo coletados a cada um a dois anos durante um período de 10 anos.

Para esta análise, os pesquisadores usaram dados transversais selecionados no início do estudo da divulgação anual 1.0, do estudo ABCD, iniciado em 1º de setembro de 2016.

O desfecho primário relevante para o estudo em tela foi a cognição global, avaliada pelo instrumento NIH Toolbox , composto de sete tarefas psicométricas confiáveis e validadas abrangendo seis domínios cognitivos: linguagem, memória episódica, função executiva, memória de trabalho e velocidade de processamento.

Os pesquisadores avaliaram a cognição global com estes compostos de subcomponentes “por causa da multiplicidade de influências independentes e provavelmente convergentes dos comportamentos avaliados no estudo ABCDsobre vários domínios da cognição”.

As exposições de interesse foram: atividade física (número de dias que o participante esteve fisicamente ativo por ≥ 60 minutos nos últimos sete dias); tempo diante das telas (número de horas gastas por semana e fim de semana típicos em atividades diante de telas); e duração do sono (número de horas de sono da criança na maioria das noites).

Os pesquisadores avaliaram covariáveis com associações positivas comprovadas com a cognição global: alta renda familiar, escolaridade dos pais e da criança, ascendência branca ou asiática e estar em estágio avançado da puberdade. Eles também avaliaram covariáveis sabidamente associadas negativamente com a cognição global, como alto índice de massa corporal e incidência de lesão cerebral traumática.

O dia inteiro é importante

O primeiro relatório anual do lançamento seletivo dos dados do ABCD contemplou 4.524 crianças entre oito e 11 anos de idade. Dessas, 836 a 853 participantes foram excluídas da análise de regressão, porque os dados estavam incompletos.

A média de atividade física ≥ 60 minutos informada pelos participantes foi de 3,7 dias por semana (desvio padrão = 2,3).

A média de tempo de lazer diante de uma tela foi 3,6 horas por dia e a média de duração do sono foi de 9,1 horas por noite (desvio padrão = 2,9 e 1,1, respectivamente).

As recomendações das diretrizes de uma média de 1,1 foram atendidas (desvio padrão = 0,9).

No total, 2.303 (51%), 1.655 (37%) e 793 (18%) dos participantes satisfizeram as recomendações quanto ao sono, o tempo diante das telas e as atividades físicas, respectivamente; 3.190 (71%) participantes atenderam uma ou mais recomendações e 216 (5%) cumpriram as três recomendações.

Dezoito porcento das crianças eram obesas.

Houve uma associação positiva entre a cognição global e cada recomendação adicional atendida (β = 1,44; intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,82 a 2,07; p < 0,0001).

Se todas as três recomendações, em oposição à ausência de recomendações, tivessem sido satisfeitas, a cognição global também foi melhor (β = 3,89;  IC de 95%, de 1,43 a 6,34; p = 0,0019).

Em comparação à ausência de recomendações, atender somente a recomendação sobre o tempo diante das telas ou sobre o tempo diante das telas e sono, também revelou associação positiva com a cognição global (β = 4,25; IC de 95%, de 2,50 a 6,01; p < 0,001; e β = 5,15; IC de 95%, de 3,56 a 6,74; p < 0,001, respectivamente).

Esses modelos representavam 21,8% a 22,8% do total da variância em cognição global. O cumprimento de outras combinações das recomendações não foi associado à cognição global.

“Não se sabe muito sobre os possíveis mecanismos explicando a relação entre o tempo diante das telas e a cognição, o que constitui um importante campo para novas pesquisas”, comentou Joel.

No entanto, o que este estudo sugere é que o “o dia inteiro é importante para a saúde cognitiva e cada recomendação adicional de movimento comportamental atendida foi associada a benefícios para a cognição global”, observou.

Perigo à vista

Comentando o estudo para o Medscape, o Dr. Eduardo Esteban Bustamante, Ph.D., cinesiologista e professor-assistente do Departamento de Cinesiologia e Nutrição da University of Illinois e do College of Applied Sciences, ambos em Chicago, e que não participou do estudo, considerou o estudo “fascinante”.

O cinesiologista observou que a maioria dos estudos têm investigado cada componente separadamente, mas foi “inteligente o modo como os pesquisadores olharam para saber se as crianças estavam atendendo à combinação das diretrizes e como isso influenciou a cognição”.

Dr. Eduardo alertou que, como o estudo foi transversal, isso é apenas uma “fotografia”, e que a associação não equivale a causalidade.

“Talvez as crianças com menor cognição sejam mais atraídas por vídeo e TV ou, talvez, um terceiro fator esteja causando essas coisas – por exemplo, talvez as famílias menos estruturadas permitam que as crianças tenham mais tempo diante das telas”, sugeriu Dr. Eduardo, que redigiu o editorial que acompanha o estudo .

No entanto, esse estudo pode ser “um sinal de perigo à vista, de modo que precisamos descobrir e investigar melhor se o tempo diante das telas tem uma importância singular”, disse o editorialista.

Outra via de investigação é se o tipo específico de atividade de tela faz diferença, disse. “A literatura é bastante ambígua, com diferentes resultados, dependendo do que as crianças estiverem fazendo durante o tempo diante das telas – por exemplo, as crianças que assistem Vila Sésamo têm demonstrado melhor desempenho escolar”.

Joel acrescentou que, “temos de considerar os nossos hábitos de uso e determinar regras e restrições que aplicamos para o tempo de lazer das crianças e dos jovens, porque não passar mais de duas horas diante das telas por dia – independentemente do conteúdo da tela – faz bem para a cognição”.

O estudo foi financiado pelos National Institutes of Health (NIH) e utilizou dados do estudo ABCD financiado pelo NIH. O estudo foi realizado por pesquisadores do CHEO Research Institute, da University of Ottawa e da Carleton University. Joel Barnes e coautores e o Dr. Eduardo Bustamante informaram não ter relações financeiras relevantes.

Link Original:https://portugues.medscape.com/verartigo/6502859?faf=1&src=soc_fb_181019_mscpmrk_pt_Top10&fbclid=IwAR2dVFwV6MqDAsD_pglIT-DQdtwNkfLaz8KDw1qMyipI2FSVH03bc-029Tw#vp_1

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