Cientistas buscam explicação biológica para comportamento corrupto

Diz o antigo ditado que o poder corrompe, mas provavelmente o que acontece é que o poder exerce uma atração especial para as pessoas corruptíveis. Pelo menos é isso que indicam estudos recentes que unem neurociência e psicologia social, num novo campo conhecido como “hipótese dos marcadores somáticos” (SMH, na sigla em inglês), na busca por uma explicação biológica para os comportamentos imorais, tendo como ponto de partida pacientes com alguns tipos de lesões cerebrais e os chamados psicopatas.

Embora normalmente associados a criminosos sanguinários, os psicopatas também podem ser descritos como indivíduos com distúrbios mentais que os tornam incapazes de sentimentos como empatia e culpa, que ignoram as possíveis consequências de suas ações não só para si como para os outros e que não aprendem como seus erros, entre outras características e comportamentos que também podem ser observados em pessoas com lesões em uma região do cérebro conhecida como córtex pré-frontal ventromedial (VMPFC, na sigla em inglês).

– A hipótese dos marcadores somáticos é uma teoria neurológica proposta para explicar as dificuldades nas tomadas de decisão de pacientes com danos nos lobos frontais de seus cérebros, mas que também pode explicar problemas decisórios das pessoas mesmo quando não há um dano óbvio nestes lobos cerebrais – conta Antoine Bechara, professor de psicologia e neurociência da Universidade do Sul da Califórnia, nos EUA, que apresentou seus trabalhos neste campo ontem no Congresso Mundial sobre Cérebro, Comportamento e Emoções (Brain 2017), que vai até domingo em Porto Alegre. – A mensagem central da SMH é que ser capaz de experimentar emoções e sentir empatia é parte essencial de tomar boas decisões. Pacientes que perdem a capacidade de ativar sinais emocionais (somáticos) acabam tomando más decisões. E o comportamento corrupto é uma forma de comportamento psicopata/sociopata que pode ser explicada com esta teoria neurológica.

Isto não quer dizer, no entanto, que todo corrupto é um psicopata, nem que ambos comportamentos sejam resultado de lesões no VMPFC. Bechara ressalta que os comportamentos corruptos também podem ser em parte explicados por um aprendizado “falho”, resultante de ambientes nos quais eles não são punidos, apontados como moralmente errados ou são até aplaudidos. Portanto, qualquer semelhança com termos bem conhecidos dos brasileiros, como “levar vantagem” e “impunidade” não é mera coincidência. E isso também ajuda a esclarecer atitudes como a do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, que em conversa com seus companheiros de quadrilha, e prisão, teria admitido: “acho que exagerei”.

– Os mecanismos que alimentam o comportamento corrupto são mediados, em parte, pelo fato de o dinheiro ser uma recompensa poderosa, como as drogas – compara Bechara. – Desta forma, recompensas poderosas como drogas e dinheiro, ou naturais, como comida e sexo, agem num sistema do cérebro chamado via mesolímbica de recompensa dopaminérgica, que nos empurra a buscá-las. Usamos o córtex pré-frontal ventromedial para controlar comportamentos que podem ter consequências negativas. Por exemplo, pessoas normais não se engajam em comportamentos corruptos porque seu VMPFC os une a valores morais da sociedade e aos riscos de punição quando violam as regras sociais, como quando roubam ou aceitam subornos, inibindo o sistema mesolímbico que impulsiona um indivíduo a se engajar em um comportamento corrupto. Se não há punição para o comportamento corrupto ou se o indivíduo não aprende que ele é moralmente errado, então o córtex pré-frontal ventromedial não fará seu trabalho de interrompê-lo.

Por outro lado, isto quer dizer que, assim como é “aprendido”, o comportamento corrupto também pode ser “desaprendido” ou mesmo evitado por completo. Para tanto, Bechara destaca a importância da educação moral tanto em casa quanto na escola, bem como de operações de combate à corrupção como a Lava-Jato.

– Aqueles que têm um córtex pré-frontal normal, mas “aprenderam” que o comportamento corrupto não tem consequências negativas, devem ser capazes de mudarem seu comportamento desviante, pois ele só continua porque não é punido e traz recompensas – diz. – Hábitos são difíceis de serem quebrados, mas punir ou elevar a percepção de risco de punição do comportamento corrupto deve ser eficaz para a maioria das pessoas, pois elas aprendem a se engajar neles sem necessariamente terem alguma anomalia cerebral, só uma educação falha. Assim, também acho que o aprendizado desde cedo, por meio dos pais e da escola, de que o comportamento corrupto é moralmente errado e enfatizar a empatia nas relações vão levar as pessoas na direção certa.

Bechara alerta, no entanto, que a corrupção e o comportamento corrupto de fato nunca poderão ser erradicados, pois uma parcela da população é simplesmente impermeável ao aprendizado moral e ao medo da punição e reprovação social, provavelmente devido a alterações fisiológicas ou funcionais do seu VMPFC que ainda não podem ser diretamente detectadas.

– Sempre haverá um grupo muito pequeno de pessoas, algumas delas alcançando altos postos no governo, que talvez tenham uma real patologia no seu córtex pré-frontal e pouca possibilidade de mudar seu comportamento – lembra. – Elas nunca aprendem com seus repetidos erros, mas cedo ou tarde estas poucas pessoas também acabam caindo em desgraça por causa de sua má capacidade na tomada de decisões. Um exemplo disso nos EUA é o fraudador “Bernie” Madoff (ex-executivo do mercado financeiro que liderou um esquema de pirâmide que causou prejuízos de mais de US$ 60 bilhões aos seus quase 5 mil investidores e acabou condenado a 150 anos de prisão).

Saindo dos governantes para os eleitores, os especialistas também estão usando a SMH na procura por explicações para as afiliações partidárias e a radicalização nas posições políticas que assola o mundo atualmente. Ainda tendo como modelo pacientes com lesões no VMPFC, eles analisam a importância das emoções nos julgamentos morais associados a estes posicionamentos e a força do chamado “autoengano” na sua manutenção mesmo diante de evidências de corrupção de seus líderes políticos e de prejuízos à sociedade.

– As emoções morais tanto agregam quanto cegam – frisa o neuropsicólogo Vitor Geraldi Haase, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, que também apresentou seus estudos na área ontem em conferência no Brain 2017. – Quando uma pessoa se confronta com um dilema moral, ela tem uma reação visceral, de maneira não consciente, que indica que algo não está claro ali e é preciso ter cuidado com esta situação. E por sua posição hierárquica superior no cérebro, é o VMPFC que vai regular estas reações, pesando as consequências do comportamento frente ao dilema e tentando prever a reação das outras pessoas a seu posicionamento. Mas, assim como os pacientes com danos nesta região do cérebro são mais suscetíveis a caírem em golpes do tipo “conto do vigário”, os partidários de uma causa podem se autoenganar para enganar os outros, se recusar a enxergar as falhas morais ou sociais na causa ou mesmo provas de corrupção que se acumulem contra seus líderes.

Com isso, o cidadão também abre a porta para ser enganado no apelidado “estelionato eleitoral” e acreditar nos chamados “salvadores da pátria”, diz Haase:

– O eleitor cai no estelionato porque quer ter logo a vantagem oferecida, por preferir a recompensa imediata do que uma maior no futuro ou mesmo pesar as consequências de que seu posicionamento representará na verdade um prejuízo lá na frente.


Link original: http://www.paraiba.com.br/2017/06/16/06973-cientistas-buscam-explicacao-biologica-para-comportamento-corrupto

 

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